e vieram verões e quase-invernos. vieram infernos muitos numa luta sem vencedores

com o tempo a gente vai aprendendo a suportar a dor da saudade. achamos que não, mas a gente consegue, sim. essa dor ainda chega como uma facada nas costelas, uma apunhalada nas costas, um golpe forte violento nas pernas… mas a gente consegue respirar lentamente (como nos ensinam nos exercícios contra a ansiedade) e continuamos seguindo.

aliás, tudo continua seguindo! e pode parecer o mais puro egoísmo, mas como o mundo pode continuar a girar se você não está mais aqui?! nas primeiras horas após sua partida me cercaram em abraços, afagos e decisões. nos primeiros dias seguintes, continuei cercada de amor, se revezavam em não me deixar sozinha, me acalentavam e eu podia chorar o quanto eu quisesse: alto ou baixinho, todo mundo compreendia. nos meses seguintes, me incentivavam a caminhar, que ia dar tudo certo, que respeitariam meu luto, mas a vida, essa bichinha tão linda, ela não tinha tempo de parar. eu deveria seguir. cada um no seu tempo.

e vieram verões e quase-invernos. vieram infernos muitos numa luta sem vencedores por momentos de céu, que seria acordar daquilo tudo: pesadelo, culpa, medo, não-aceitação, raiva e saudade.

hoje quase não mais me desespero em choro, quase. porque minha base foi construída fortemente, apesar de ter recebido todos os seus medos de finitude desde o teu ventre. mas anoitece e amanhece e continuo não acreditando como pode o mundo continuar girando sem ter a tua risada gostosa, teu colo e tua carne com molho de leite. todos os dias serão teus, mamãe.45

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essa manhã de segunda-feira já quase finda e ainda nem iniciei o planejamento semanal. planejo tudo: eu e você e aquela grama. eu e você a puxar conversa com o garçom de sotaque nordestino. eu e você a caminharmos em silêncio na maresia das inquietudes. eu e você a observar copas e folhas das árvores. eu e você sutilmente nos tocamos as palmas das mãos. eu e você a atravessarmos camadas e mais camadas de impossibilidades com o coração dizendo sim, quero muito.