olha, João, vê como o mundo é incrível!

naquela tarde, logo após atravessar o frágil portão de madeira daquele reino das terras altas, a notícia chegou. eu, quase sem conexão virtual com o ‘lá fora’, pedi em áudio que sucintamente me explicassem: ele foi condenado a nove anos de prisão por um crime que jamais provado.

guardei o celular no bolso e acompanhei a coleta de laranjas, limões, goiabas e côcos. uma família se divertia em gargalhadas e no processo único da ampliação afetiva. até onde a vista alcançava, nuvens e vento, eu mentalizava em silêncio para que aquela onda ruim não abalasse o mundo, não me deixasse desistir, não me fizesse esmorecer.

ei, Anna, quer caminhar mais até ali?! olhamos o céu em tons de rosa e paramos para ouvir o balançar da cauda da cobra. olha, João, vê como o mundo é incrível! cruzamos os olhares como quem confidencia o prelúdio de mais um milagre invisível e silenciamos.

não podemos desacreditar no amor em nenhuma de suas formas, João, não podemos.

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quero em demasia, aliás!

vou te ser sincera: eu quero!
quero muito, inclusive!
quero em demasia, aliás!

acordei com essa canção melodramática tocando em looping e essa pessoa que cantarolava baixinho escovando os dentes, aquela moça batendo o pé num possível compasso esperando o café coar, aquela mulher que sorri com os olhos porque sempre se vê grávida de um futuro, descobri: eram todas a mesma pessoa.

é preciso mesmo esse aventurar-me entre o não saber e o querer – muito – sentir.

cada folha daquele caderno amarelado, florido, costurado nas mais altas terras de um território nomeado reinvenção de si me trouxe teu sorriso e teu olhar de inquietude. e como quem busca o ar depois de um longo nado subaquático em mar aberto, ora calmaria, ora desespero, senti o tal quentinho no coração de quem sabe que é preciso mesmo esse aventurar-me entre o não saber e o querer – muito – sentir.